BRASILEIRINHOS APÁTRIDAS
Pátria é o país em que nascemos, o torrão natal, nossa terra natal. Para Olavo Bilac, “A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo”. Para Miguel Torga, “uma pátria é o espaço telúrico e moral, cultural e afetivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro”. Ter pátria é o pressuposto básico da cidadania e dele não se pode abrir mão.
A minha pátria é como se não fosse, é íntima Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo É minha pátria. Por isso, no exílio Assistindo dormir meu filho Choro de saudades de minha pátria.
Emigrantes brasileiros descobriram, perplexos e apreensivos, que seus filhos vão perder a nacionalidade brasileira. São centenas de milhares de crianças que falam português, e que vivem com seus pais na Europa e Ásia, principalmente. A revisão constitucional de 1994 as ‘despatriou’, pois seus passaportes vão caducar quando elas fizerem dezoito anos.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: Não sei. De fato, não sei Como, por que e quando a minha pátria Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água Que elaboram e liquefazem a minha mágoa Em longas lágrimas amargas.
O artigo da Constituição, que garantia a nacionalidade aos filhos dos brasileiros no exterior ficou de fora na revisão. Então, o Ministério das Relações Exteriores criou para eles um passaporte provisório. Isso implica em que esses meninos e meninas se tornem estrangeiros no Brasil, após os dezoito anos. São cerca de 200 mil filhos de emigrantes e futuros apátridas.
Não te direi o nome, pátria minha Teu nome é pátria amada, é patriazinha Não rima com mãe gentil Vives em mim como uma filha, que és Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez.
O que tem sido feito? O que pode ainda ser feito? Apelar às autoridades competentes pela aprovação de nova emenda de lei, a 272-2000, para restabelecer o artigo 12, em seu inciso 1 letra “c’. Se a emenda for votada e aprovada, essas crianças serão consideradas brasileiras natas ao se registrarem nos consulados brasileiros do mundo inteiro, como era antes da reforma constitucional.
Há vários movimentos na Internet e na mídia em geral com esse propósito, entre eles o www.brasileirinhosapatridas.org, com sede na Suíça, com milhares de participantes, entre pais, mães, avós e demais parentes dos ‘brasileirinhos apátridas’. Estes versos de Vinícius de Moraes ficam aqui para ilustrar a situação que vem tirando o sono de nossos compatriotas que vivem no exterior.
Agora chamarei a amiga cotovia E pedirei que peça ao rouxinol do dia Que peça ao sabiá Para levar-te presto este avigrama: “Pátria minha, saudades de quem te ama… Vinicius de Moraes.”
Escrito por tekka às 11h21
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entrevista com LUIZ MUTARELLI

Tem uma frase do Diomedes que eu adoro, que eu acho de uma beleza e de uma profundidade, não por ser minha, mas porque é uma coisa que eu senti profundamente: é num momento em que ela destrata ele e ele pergunta “só porque você não me ama mais eu tenho que te tratar como se não te amasse mais também?”. Então, isso pra mim foi uma dor muito grande. Essa ruptura me marcou muito. Tudo bem, a pessoa não gosta mais de mim, não me quer mais. Essa pessoa tão importante se torna tão cruel. E o que eu faço com o meu amor? Eu não posso seguir meu caminho ainda amando essa pessoa? Como eu mato o meu amor?
O personagem de O natimorto sai de casa, mas logo se submete a outro amor. O amor tem que ser uma relação de igualdade. Você se ver igualmente. Quando você idolatra ou despreza, cria essas patologias do amor. Esse personagem é muito parecido comigo. Talvez se eu saísse de casa, como eu já tive o impulso, eu fizesse como ele, iria para um hotel e me trancaria lá. Entende? É uma fraqueza maior ainda. Tem uma história do Mundo pet que eu gosto muito. Um cara assiste a Fugindo do inferno, que é um filme de guerra bem legal, onde eles cavam um túnel para fugir da prisão. E ele percebe e começa a cavar um túnel para fugir da mulher, para fugir de casa. Ele não entende que era só abrir a porta. Então ele cava escondido, quando ela não está, e todo dia vai tirando a terra numa fronha de travesseiro.
Isso é Kafka... Totalmente. O primeiro livro, mesmo, que eu li foi A metamorfose. E aquilo me pegou. Foi uma identidade. Para minha família, para o meu meio, eu era um inseto. A minha mãe morria de vergonha de mim, para ela eu era um problema, sempre fui um problema na família. Então, Kafka não só me influenciou como tinha aquela identidade de ler um livro e pensar que ele escreveu esse livro pra mim. Dá um ciúme do livro...
A solidão é uma condição muito freqüente no seu trabalho. Até porque a separação leva a ela. Há uma necessidade de solidão e, ao mesmo tempo, uma aversão a ela. Essa solidão é um pouco mais do que a solidão. É a dor de eu não poder carregar a cruz de quem eu gosto. Eu perdi um amigo de câncer, uma história que contei em Réquiem, e eu queria pegar um pouco dessa doença. Pensava que se eu pegasse metade daquilo, ele não sofreria tanto. Meu pai também morreu de câncer, e ele sofreu. Então... É uma solidão e uma impotência. Umas situações em que, infelizmente, você não tem o que fazer. É você ter uma pessoa muito preciosa para você e ver que está perdendo essa pessoa. E você não quer perdê-la porque não quer ficar sozinho. Ela é uma pessoa importante para você, ela te faz bem... Mas a solidão, para mim, também faz um bem, eu adoro ficar sozinho. Adoro a minha companhia. Mas tem um limite. Quando eu trabalho, eu digo que vou para o inferno, porque eu afundo, eu me transformo. Não gosto nem que cheguem perto. Mas eu me conheço muito bem. Eu sei a hora de voltar.
Escrito por tekka às 12h47
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