O ANO PASSADO

Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:
"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".
Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...
Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado. Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.
/ Mário Quintana /
A TODOS OS AMIGOS E AMIGAS QUE AQUI PASSAREM, SAIBAM QUE ESTOU DESEJANDO UM FELIZ ANO NOVO!
Escrito por tekka às 22h59
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IDENTIDADE, CEGUEIRA & PANETONE
Mesmo sem perceber, o indivíduo hoje é um prisioneiro do mercado, essa instituição total dissimulada, e seus relacionamentos só são mediados por coisas, e não por sua “identidade”. Ele fica preso num círculo invisível, que o constrange ainda mais nos chamados “dias de festas natalinas”, e o induz a comprar, comprar, comprar. Cessa, desse modo, a possibilidade de qualquer experiência sadia do con-viver e as pessoas se digladiam ou se matam de trabalhar para adquirir, no fim do ano, o último modelo de carro, relógio, celular, badulaques para os filhos, ou presentes para os amigos, mesmo que “ocultos”. É uma espécie de cegueira coletiva, e os olhos só enxergam as vitrines ou anúncios dos outdoors, e as famosas listas e cartinhas ao papai-noel.
E os filhos no meio disso? Solange Jobim e Souza pergunta-nos: “Por que os nossos filhos são tão infelizes? Por que tão violentos, se nós pais fazemos de tudo, do possível ao impossível, para que a felicidade prometida pelo consumo esteja ao seu alcance?” - Ela mesma responde: “O fato é que aprendemos a avaliar com perfeição a vida através dos objetos que circulam entre nós […] Uma felicidade deserta e sem cultura tomou conta de nós. Não há mais aspirações nem projetos. Nossas relações com nossos filhos estão hoje absolutamente empobrecidas de verdadeiras experiências, aquelas que nos orgulhávamos de contar quando nos sentíamos herdeiros de uma tradição. Mas não há mais o que contar. A abundância do supérfluo nos deixou, a todos nós, mudos…” (*)
O exagero de luzes do Natal não nos confere claridade; a insistência dos jingles nos atordoa. A palavra de ordem da temporada é: COMPRA PRA MIM! Simbolicamente, pelo menos, acho que vou passar sem panetone …
www.focando.jor.br __
Escrito por tekka às 13h38
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