Brasília não tem urubu. Tem anjos belíssimos, femininos, plácidos, tanto na Catedral quanto na Esplanada. Anjos têm essa conotação de candura e esplendor, intermediários que são entre o céu e a terra. Não obstante a suavidade, são também justiceiros: com a espada, um Arcanjo expulsou Adão e Eva do paraíso, venceu Lúcifer e se constituiu em defensor dos homens contra o dragão infernal. Já urubus são os corvos brasileiros.
Urubus malandros, longevos, aves de rapina diurna, sentem de longe emanações pestilentas. Descreve-os Tom Jobim: “solenes ombros altos, narinas conspícuas, ministros de assuntos impossíveis […] pacote negro, compacto, bico cravado no vento, velocidade feita letal”. Não se descuidam da prole, vertendo-lhes no bico restos regurgitados – coisa de pai para filho.
Fazem falta em Brasília não só porque têm lá sua ética, mas porque são lixeiros incansáveis e atentos. Benfeitores canhestros da humanidade, são agourentos, mas úteis e necessários. Como eu ia dizendo, não os temos aqui. E os Anjos que Ceschiatti nos legou são impassíveis, não se metem em confusão. Aqui, a própria Justiça é sossegada, com a espada delicadamente pousada no colo.
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Escrito por tekka às 22h34
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