Ausência / Vinícius
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinícius de Moraes
Escrito por tekka às 11h24
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SANGUE DO MEU SANGUE

Sempre me pareceu curiosa a obsessão das mães para fazer ‘exame de sangue’ dos filhotes. Mesmo sem saber direito o que esperar de tal exame, deixam transparecer o que rola em seu imaginário, a começar pelo ‘grupo sanguíneo’. Até o aparecimento do teste de DNA, ficava aquela indagação: qual o tipo de sangue do bebê? Combina com o meu? Combina com o do pai? Tem anemia? Tem sífilis? Esta deixou um traço indelével na história, determinante de quem tem ’sangue bom’ ou ’sangue ruim’.
A circulação sanguínea foi descoberta por Harvey no século XVII. Até então não se sabia que o sangue ia de órgão em órgão, através da rede vascular de veias e artérias, com ‘pit stop’ nos pulmões, para a troca de gás carbônico por oxigênio. Foi ele quem descreveu que o coração bombeava três vezes o peso do corpo em quantidade de sangue e que este circulava em um circuito fechado: coração-artéria-tecidos-veias-coração.
Sangue tem um significado de vida e morte, colorindo dramaticamente o nascimento, as guerras, as cirurgias, os tiroteios urbanos. O cinema tem toda uma estética do sangue, apropriada por vários cineastas, com destaque para Hitchcock e Tarantino. A cena do banheiro em Psicose é considerada a mais perfeita do cinema, mesmo com o sangue em preto e branco. Quentin Tarantino encharcou a tela com o sangue-trash dos ‘mangás’ japoneses, numa verdadeira hemorragia de significantes mortíferos: tiros em profusão, seringas, cabeças cortadas por vistosas espadas japonesas, e muito, muito sangue.
A vida é cruenta: a placenta é uma esponja ensangüentada ligada ao feto pelo cordão umbilical. O útero é o órgão sanguíneo por excelência, descrito de várias formas por Michelet, que denomina a criança nascitura de ‘flor de leite e sangue’. É proibido o comércio de sangue, mas em tempos bicudos é moeda valiosa. Durante o ‘crack’ de 1929, as pessoas deixavam amostras nos vários hospitais, como cartões de visita – além da grana, havia a certeza de uma boa refeição, às vezes com vinho do Porto.
Sangue é vida borbulhante: “Os homens nasciam no sangue e no sangue morriam. O sangue era potente, mágico, fecundo. O sangue era um êxtase de dor e de beleza, uma partícula da essência divina. Onde havia adoração, havia sangue – onde quer que houvesse vida e música e embriaguez e adoração e triunfo, havia sangue“. (Henry Miller em Crazy Cock).
Receber o resultado de um hemograma, com diagnóstico de ’sangue bom’, juntamente com o certificado de doador, reveste-se da solenidade de um ato heróico e nobre. Com a certeza de estar compartilhando do tênue fio que liga uma vida humana a outra.
http://www.focando.jor.br/?p=35
Escrito por tekka às 11h07
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