O FILHO DE FRANCISCO

Pássaros - foto de Leila Lopes
Quando ele nasceu, a mãe nem imaginava que, ao dar-lhe o nome, traçava seu destino. Tão logo atingiu a adolescência, Francisco foi crismado e passou a ler diariamente, a vida do “poverello de Assis”. Assistiu o “Irmão Sol Irmã Lua” no cinema, chorando muito na cena em que seu padroeiro se despoja das ricas vestes paternas e dedica sua vida e energia a cuidar dos leprosos.
Visitou Florença e as antigas fábricas de lã, seguindo para Assis, onde sentiu intensa comoção na capela de Francesco. Ali mesmo, em lágrimas, prometeu tornar-se médico dos pobres, para que nunca viessem a sentir fome nem os rigores do frio. Em sua obstinação cega, não conseguia distinguir entre pobres verdadeiros e os de ocasião, que se aproveitavam de seu coração mole. Sempre tinha uma camisa e agasalho na bolsa, biscoitos para as crianças e até escovas de dente.
Evitava ofender o próximo com palavras injuriosas e visitava órfãos e viúvas. Abriu uma ONG, cujos objetivos eram similares aos do Fome Zero e dos programas contra o preconceito e em prol do meio-ambiente. Não perdia oportunidade de se mostrar concorde com a sentença bíblica de que os últimos serão os primeiros.
Não tinha carro, para não poluir o planeta; só comia alimentos orgânicos e recolhia óleo de cozinha usado para transformá-lo em sabão. Separava o lixo dos vizinhos em contêineres que adquiriu do próprio bolso para a coleta seletiva. A Internet passou a ser seu braço direito e com ela acompanhava movimentos contra a poluição dos rios, o desmatamento e o efeito estufa. Catava papel nas calçadas e doutrinava uns e outros sobre os malefícios do fast-food e das embalagens de isopor. À noite se recolhia em prantos, meditando sobre a demência humana e a corrupção dos governantes.
Passou a falar sozinho, já que perdera os interlocutores. Foi recolhido a uma enfermaria psiquiátrica em pleno inverno. Aceitava resignado as injeções de haldol com fenergan e, ao acordar, retomava seus discursos pela paz no mundo. Sentindo-se esgotado e incapaz de voltar ao trabalho, chamou seu filho único, a quem confiou pequena herança material: uma polaróide, um atlas de anatomia, alguns livros e uma poupança na Caixa Econômica.
Morreu sozinho, sem mágoa. Foi levado à sepultura pelos amigos de enfermaria e um cortejo de pombos e passarinhos, que vinham bicar as flores e coroas. É que o filho, tomado de compaixão por sua pobreza franciscana, havia distribuído migalhas de pão e canjiquinha de milho sobre o féretro, produzindo, estrategicamente, o pequeno “milagre” …
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o focando não morreu! HTTP://FOCANDO.JOR.BR
Escrito por tekka às 23h15
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