
A madrasta e o espelho O perigo do espelho é o seu poder de refletir. Todos nós buscamos um espelho que nos diga sempre:"Tu és o mais belo". Quando, ao contrário, a imagem se metamorfoseia em imagem feia, viramos bruxas e feiticeiros do mal. Quebramos os espelho eo veneno transborda do corpo. É assim o amor. Amamos as pessoas não pela beleza que existe nelas, mas pela beleza nossa que nelas aparece refletida. O que é uma pessoa bela? É aquela em que nos vemos belos. Narciso, é o mito mais fundamental. Mais fundamental que Édipo. Édipo é uma variação, um desenvolvimento. A história da madrasta do espelho, em "Branca de neve e os sete anões", é uma combinação dos dois: primeiro, a relação de amor paradisíaco, Madrasta e o espelho. O amor acontecia na voz do espelho que dizia: "És a mais linda". Depois, quando a relação de encantamento é quebrada pelo aparecimento de uma outra imagem, mais bela. E a Madrasta se vê, repentinamente, excluída do espelho. E fica malvada. Toda exclusão faz isto: desperta em nós uma imagem cruel e feia, adormecida, que toma conta do corpo. Por isso q somos mendigos de olhares. Olhos são espelhos. Cada encontro é um pedido:"Dize-me, espelho meu, haverá no mundo alguém mais belo doque eu?" Por isto nos enfeitamos, por isto escrevemos, por isto convidamos os amigos para jantares, por isto vamos a alegres reuniões de amigos, por isto se fazem atos heróicos, por isto se escrevem poemas, por isto se fazem gestos: todos são pedidos de reconhecimento da nossa beleza. Por isto a figura da Madrasta da Branca de nenve é uma figura trágica; porque ela revela o drama do amor, a sua alegria e a sua decomposição. Somos todoas a Madrasta, em busca de uma bela imagem... Rubem Alves- "O Retorno e Terno"
Escrito por tekka às 07h43
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