Esse verso é da Ode 1ª de Horácio, e que ficou popular com o filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. ‘Hoje’ é o único dia que realmente temos, constituído de 24 horas, ou 1.440 minutos ou 86.400 segundos, que se escoam feito areia na ampulheta ou água na clepsidra. Vivemos correndo atrás das horas perdidas e dos minutos fugidios. O relógio, ou reloj, ou clock, ou horloge, é o tempo aprisionado numa engrenagem. Santos Dumont inventou de levá-lo no pulso. Dali criou os relógios moles e um outro que é uma jóia de platina e brilhantes: O Olho do Tempo. O Big Ben é o ícone mais conhecido de Cronos, o devorador, responsável pela pontualidade britânica.
Quando não temos, ou não sabemos, o que fazer, ‘matamos o tempo’, ‘fazemos hora’, ‘corremos contra o tempo’, na terrena ilusão de dominar esse ‘senhor da razão’, que, indiferente, acaricia e amassa a pele, embranquece cabelos, muda uma estação em outra. Faz chover, faz nevar, manda fazer calor. Viaja no carro do Sol, visita a Lua, corteja a Aurora. Sua mão invisível constrói e destrói cidades e impérios, transpõe gerações, faz nascer uns, enterra outros. É Abril o mais cruel dos meses? Talvez para os mortos do hemisfério norte. Para nós, os sobreviventes, todos os meses são cruéis, já que não param de precipitar-se no oceano em que “a praia é a eternidade”. Menos aos 8 anos, que nos deixam para sempre saudosos ‘daquela infância querida, que os anos não trazem mais’ e que parecia eterna.
Tempo, tempo, tempo, tempo. O grande incentivador da cirurgia plástica e do silicone, cujos clientes ele contempla, irônico: ‘te espero, te espero!’. Patrono também das cartomantes e futurólogos, cujo sucesso se deve exclusivamente à nossa capacidade de esquecer. Dizem que o tempo não passa, nós é que passamos; que não se pode matá-lo, mas apenas vivê-lo, enquanto o temos. Ou que é uma dura escola, na qual somos matriculados à revelia. Ou que, perdido, nunca mais é encontrado. Que mil anos perante a eternidade não passam de um minuto. Para Marguerite Yourcenar, o tempo é ‘o grande escultor’. Paulinho Mendes Campos tem sobre ele um soneto perfeito, Tempo-Eternidade: “Nos meus olhos o tempo é uma cegueira/ E a minha eternidade uma bandeira/ Aberta em céu azul de solidões”. É dele também: “Três coisas não consigo entender: o tempo, a morte, teu olhar.” Mas o trecho mais conhecido é o do Eclesiastes, de que há um tempo para cada coisa debaixo do céu.
O tempo pretérito sempre se nos afigura mais-que-perfeito; o futuro, esse é irregular, subjuntivo. O 'dia de hoje' se conjuga no presente do indicativo. E no imperativo: aqui, agora! Relógios são o símbolo da opressão do lucro – na primavera de 68, os estudantes foram às ruas contra a mais-valia e pelo ócio criativo, sexo, ervas e rock’n’roll, e a primeira coisa que fizeram foi detonar os relógios públicos. As empresas controlam os empregados com o relógio de ponto. Para algumas cabeças, liberdade é não usar relógio. Apesar do “Carpe Diem”, o mundo gira pela regra de Alice: “geléia amanhã e geléia ontem – nunca geléia hoje...” Seu amigo, o Coelho Falante, não parava de avisar: - é tarde, é tarde, muito tarde! Sempre é tarde, alguma coisa sempre cai no esquecimento e vai pro Dia de São Nunca – never more, never more...
Alguns povos vêem o tempo como arte e não como commodity: não há torres a construir, nem relógios de ponto, nem embarques imediatos, nem cheques pré-datados. Há apenas um fluir e um fruir não utilitário, que permite usá-lo na construção de templos, estátua, vasilhas, amuletos. Ou conjeturando sobre o tempo e fazendo calendários. Alguns escritores e artistas parecem independer do tempo, como Michelangelo e sua Capela Sistina, que nunca tinha fim, irritando o Papa, mas ele, nem aí... Como eu gostaria de fechar esta croniquinha com o brilho de Scott Fitzgerald: “e assim vamos nós, barcos contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado”. Mas...vou ter que usar as minhas próprias palavras. E antes que o tempo se esgote, quero lembrar uma letra de Aldir Blanc, na interpretação de Nana Caymmi, que trata do diálogo entre o amor e o tempo, o primeiro dizendo que o tempo aprisiona e que ele, amor, liberta; e que o tempo sabe passar e ele não...
Ah, Horácio, é cruel querer saber o que nos reservam os deuses, ou quantos invernos nos esperam. Aproveitemos o dia de hoje, como você tão sabiamente aconselhou. Vamos curtir o tempo presente. Não confiemos no dia de amanhã, no incerto futuro. Usemos o despertador, o telefone, vamos correndo ao trabalho. Afinal, time is money!
Nota: se alguém quiser informações sobre como se mede o tempo, o que é tempo solar, conceito de tempo em física e história do calendário, inclusive o zodiacal, confira.
Imagem: Olho do tempo, de Salvador Dalí. >>>> www.focando.org