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strange-fruit


GABRIELA

 

Primeiro, Rose me mandou email>>>>

Visitem o site, façam parte desta luta, divulgem!  http://www.gabrielasoudapaz.org/
 

Depois, a Beta fez um pedido público para que as pessoas se manifestem - hoje SERIA aniversário da GABRIELA - você consegue imaginar o que é isso??? vc pode fazer ALGUMA COISA!!!! VISITE O SITE, assine a lista ! VC PODE AJUDAR, FAÇA ISSO AGORA, POR FAVOR!!

"É importante que as pessoas entendam que o sucesso da campanha depende da participação de todos nós!!!!!Afinal, a violência não escolhe,idade, horário, local, sexo, etc...todos nós estamos vulneráveis a isso!!!!E quando acontece.......é uma dor sem tamanho!!! Agradeço a solidariedade, que nesse momento é o nosso bálsamo, e a participação de vocês, continuando a divulgar a campanha, para que possamos atingir nosso objetivo que é, além de alterar os itens no Código Penal, a mudança na mentalidade de nossa sociedade, que precisa entender, que para mudar, cada um tem que fazer a sua parte!!!!! "   (Cleyde - mãe da pequena Gabriela)


* Extraído do site:
http://www.gabrielasoudapaz.org

Somos larvas nos casulos
Esperando o momento certo
De sermos transformados em belas borboletas
Sentimo-nos limitados e fatigados
Desejamos ser renovados e alçar vôo
Alcançando novos céus
Deixando de lado toda dor e todo fel
No dia 25 de março de 2003
A pequena Gabriela foi transformada em borboleta
E alçou o mais alto voô,
O mais belo,
O mais humilde,
O único vôo
Com destino livre.
Deixou com os seus a dor e a saudade de uma partida inesperada e brutal
Ainda na tenra idade com tantos sonhos e tanta vida pela frente.
Dia 30 de agosto, seriam apenas 16 anos a ser completados...

(Queen Bee)

http://www.ruaramalhete.turmadobar.com/






Escrito por tekka às 02h39
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QUEM É VOCÊ??????

deprimido  ativo  capaz  autêntico  orgulhoso  íntegro  humilde  descuidado  contente  desconfiado  capaz  desajeitado  feioso  organizado  eficiente  caótico  próspero  objetivo  fingido  dispersivo  “mão-aberta”   “mão-de-vaca”  pretensioso   narcisista   leal  empolado  capaz  racional  destemperado  iludido  inflexível  molenga  ingênuo  durão  preconceituoso  cordial  hospitaleiro  carinhoso negligente  sortudo  relutante  superior  amável  líder  caprichoso  capacho  realizador  esperto  abonado  sarado  palha  inventivo  elegante  empreendedor  confiante no futuro

 

 

 

UAU!!! VOCÊ É .... HUMANO!!!

 



Escrito por tekka às 12h45
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CAIM & ABEL

 

 

Caim e Abel caminhavam pelo deserto e se reconheceram de longe, porque os dois  eram muito altos.  Sentaram -se na terra, fizeram fogo e guardaram silêncio, à maneira de gente cansada quando declina o dia. No céu, apenas uma estrela que ainda não recebera nome. À luz das chamas, Caim viu na testa de Abel a marca da pedra com que o matou. Deixou cair o pano que levaria à boca e pediu perdão por seu crime.

Esse conto de Jorge Luis Borges (do ”Elogio da Sombra”), que agora reescrevo, pode ter vários finais, ao lado do autêntico. Pode ser uma parábola sobre a virtude: Abel diz “eu te perdôo, meu irmão, não porque tu me pediste, mas porque vejo em seus olhos a chama do arrependimento”. E Caim diz “agradeço-te , meu irmão, mas permita que te diga não ser esse arrependimento mais nobre que a humildade no confessar minhas fraquezas”.

Pode ser uma parábola sobre a justiça. Abel: “Não sou eu quem tem que te perdoar, meu irmão, mas tu mesmo”. Caim: “Se assim for, então não há razão para nenhum perdão. O justo que é justo não perdoa, e minha consciência diz que devo pagar por meus erros”.

Pode ser uma parábola sobre o remorso: Abel diz “não te perdoei, apenas porque nunca soube quem de nós dois fez mal ao outro: se tu, matando-me, ou eu, perseguindo-te como um fantasma desde o paraíso perdido até o fim dos tempos”. E Caim diz “já que é assim, irmão, então eu te perdôo, mas tu também me perdoes”.

Pode ser uma parábola sobre o perdão: Abel diz “você me matou ou eu te matei? Já não recordo; aqui estamos juntos, como antes”. Caim diz “agora sei que me perdoaste, meu irmão, porque esquecer é perdoar, e eu também tratarei de esquecer”.

Quatro finais plausíveis para um mesmo conto – aparentemente iguais e, no entanto, tão diferentes. Quatro finais que dão forma concreta ao eterno drama da realidade e sua máscara, às muitas faces da verdade.

p.s.: o final do conto de Borges, como os leitores já devem ter percebido, é o último.

 

                                               (Paulo José Cavalcanti Filho)

 



Escrito por tekka às 12h45
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o palito japonês/ Roland Barthes

 

 

O palito divide, separa, afasta, mordisca, ao invés de cortar e agarrar, como nossos talheres; ele nunca violenta o alimento: desembaraça-o pouco a pouco (no caso das ervas), ou então o desfaz (no caso dos peixes, das enguias), reencontrando assim as fissuras naturais da matéria (nisso mais próximo do dedo primitivo que a faca). Enfim, e esta é talvez sua mais bela função, o palito duplo translada o alimento, quer quando, cruzado como duas mãos, suporte e não mais pinça, ele se insinua sob o floco de arroz e o estende, o eleva até a boca do comensal, quer quando (por um gesto milenar do Oriente) ele faz deslizar a neve alimentar da tijela aos lábios, como uma pazinha. Em todos esses usos, em todos esses gestos que implica, o palito se opõe à nossa faca (e a seu substituto predatório, o garfo): ele é o instrumento alimentar que se recusa a cortar, a aferrar, a mutilar, a furar (gestos muito limitados, recusados na preparação da cozinha: o peixeiro que esfola, sob nossos olhos, a enguia viva, exorciza de uma vez por todas, num sacrifício preliminar, o assassinato do alimento); pelo palito, o alimento não é mais uma presa que se violenta (carnes sobre as quais nos afincamos), mas uma substância harmoniosamente transferida; ele transforma a matéria previamente dividida em alimento de pássaro, e o arroz em jorro de leite; maternal, ele conduz incansavelmente o gesto da bicada, deixando a nossos hábitos alimentares, armados de lanças e facas, o da predação.! – Roland Barthes -



Escrito por tekka às 12h35
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CAMPECHE E O PEQUENO PRÍNCIPE

             

 Era uma vez uma ilha chamada Iounalao, que significa “onde se encontra o iguana”. O viajantes que aí chegam acreditam, às vezes, que chegaram não a uma ilha tropical, mas a uma ilha grega. A ilusão é provocada pela natureza peculiar das águas que cercam a ilha, que podem assumir uma cor de vinho.

             A principal aldeia de Iounalao consiste em uma única rua que leva à praia, onde há pequenas lojas, clubes e uma única farmácia. O museu local contém restos de um galeão de Cartagena; os ilhéus acreditam que o navio afundado é protegido por um polvo-cíclope, com um olho semelhante à lua, e as gaivotas o defendem da profanação.

              O bar mais antigo da aldeia chama-se Sem Dor, e é dirigido por uma artista chamada Tati das Artes, que canta, pinta e representa. Saindo do bar, em direção ao norte da aldeia, vai-se por uma estrada de quartzo cintilante, até um bosque de campeches espinhentos. Outrora os campeches faziam parte de uma fazenda com moinhos de vento, tonéis para ferver açúcar e pilares de esmeralda.

               A praia é o ‘point’ de encontro; ali os ilhéus andam a cavalo, pegam caranguejos ou escutam canções. Sentado na praia, guardando a flotilha de canoas de nomes como Louvado Seja, Confiamos em Deus, Estrela d’ Alva, Santa Luzia, Luz dos Meus Olhos, encontra-se o bardo da ilha, um cego conhecido como Velho Santo Omero, ou Senhor dos Sete Mares. Às vezes ele canta, às vezes murmura histórias sobre suas navegações pelo mundo.

               Quando a ilha obteve a independência, passou a chamar-se Floripa_Musical, por causa de sua estranha flora de instrumentos arcaicos que crescem em plantações protegidas por cercas de bambu eólicas. Graças a um órgão doado pelo Rei Pepino em 775, respira-se na ilha o perfume exalado pelo oitavino, pelo fagote, pelo oboé d’ amor, o celofone, os saxornes e a cornamusa. A sonoridade atmosférica da ilha é controlada por termômetros chamados ‘sirenas’ que reproduzem até o zumbido de uma mosca.



Escrito por tekka às 21h00
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                              Os céus também fazem música, para delícia dos visitantes. À noite, Saturno chacoalha um sisto contra seus anéis; ao alvorecer e ao anoitecer, o Sol e a Lua batem com címbalos retumbantes.

                  O Senhor da Ilha senta-se num trono perfumado de harpas e ouve um coro de tronos, potestades e dominações cantando: “Bebamos noite e dia” e “Amemos sempre”. Outros cantos de alegria, cheios de amor e trocadilhos, são interpretados por um menino nu e pelo velho Santo Omero.

 

                  Certo dia, lá pousou um piloto francês chamado Saint Exupéry, que logo foi apelidado de Pery, como é costume em Floripa – lá ninguém fica sem apelido. Pery fazia lá suas escalas a caminho da Argentina, e contava à Tati umas historinhas de um tal ‘Pequeno Príncipe’. Em sua última viagem, da qual não retornou, deixou com ela um livrinho  com as histórias que contava e seu autógrafo, com uma mensagem que ela deveria sempre passar adiante em seus emails:

 

Tu te tornas responsável por aquilo que cativas”.

 

 

 

Refs:

 

1)     Derek Walcott, Omeros, 1990, tradução de Paulo Vizioli, SP, 1994

2)     Alfred Jarry, Pataphysicien, Paris, 1911

3)     Manguel & Guadalupi, Dicionário de Lugares Imaginários, Cia das Letras, 2003

      4)  Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, muito conhecido.

Escrito por tekka às 20h59
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quem é Tati?

TATI, a ANIVERSARIANTE,  é virginiana e, portanto, sensível ao extremo, sempre pronta a ajudar. Tem tendência a rememorar o passado. É fiel e afetiva, alegre e amorosa. Gosta de ser apreciada. Tem clareza de pensamento, é metódica e abomina a desordem. Preocupa-se com a saúde e a alimentação. É prática e idealista ao mesmo tempo. De natureza calma, tímida e retraída, detalhista e paciente. Tem como regente Mercúrio, sua pedra é a opala, seu dia a 4ª feira, seu número é o 5, sua cor o cinza-claro. Seu signo é ligado à terra, que simboliza assimilação e determina inteligência, método, dualidade de temperamento. Aprecia as artes e pratica-as, seja cantando ou pintando ou dando aulas de arte para crianças em Floripa.

 

 

 

 

 

No dia do aniversário

A gente às vezes tem vontade

De se esconder dentro de um armário

Mas aí vem um com um beijo

Outro realizando um desejo

E aquele que está sempre atrasado

Chega superanimado

Estourando um champanhe

Mesmo que eu estranhe

E não entenda muito bem

Por que tantos parabéns

Fico feliz com os presentes.

 

Agüento melhor os parentes

E não me pergunto na hora

O que há de mentirinha

Nessa anual história.

Quem me dera tanto afeto

Duas vezes por semana

Pra derreter a couraça

Pra amenizar minha gana

Congelaria se possível

Muitos pedaços do bolo

Pra durante o ano carente

Comê-los como consolo

 (Elisa Dias Batista)

 



Escrito por tekka às 20h56
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Se as coisas são inatingíveis

Não é motivo

Para não querê-las.

Que tristes os caminhos

Se não fora

A mágica presença

Das estrelas!

(Mário Quintana)

                                                     

 

DA AMIZADE:

 

Diz Aristóteles: Somente o Primeiro Motor Imóvel é autárquico, somente o deus é plena e totalmente auto-suficiente e independente e por isso somente ele é plenamente feliz ou bem-aventurado. Os homens não podem ter essa plenitude, mas podem desejá-la (e a desejam) e podem imitá-la, isso é, emulá-la e simulá-la. COMO OS HOMENS IMITAM A AUTARQUIA DIVINA? Pela amizade. Com efeito, juntos, os amigos formam uma unidade mais completa e mais perfeita do que os indivíduos isolados e, pela ajuda recíproca e desinteressada, fazem com que cada um seja mais independente do que se estivesse só. A amizade é nossa parte no divino, a maneira como a ação humana imita a autarquia divina e faz a pólis (a cidade) imitar a autarquia do kósmos (o universo).

 

 

 

 



Escrito por tekka às 20h51
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DA COR DO PECADO 3

 

 

 

Esta semana, família minha amiga, do interior, esclarecida, de nível superior, sofreu discriminação pública tão abominável, inacreditável, hedionda, que andei procurando subsídios para postar alguma coisa fundamentada sobre racismo e outros ismos no Brasil. Busquei dois nomes super-conceituados do pensamento brasileiro para eu mesma ter certeza de que não podemos ignorar nem 'adocicar' o que acontece sob nossos olhos, nem dizer que NÃO EXISTE RACISMO NO BRASIL!! meu coração está doendo, magoado - ficam aqui esses dois depoimentos de quem sabe NA PELE o que é SER NEGRO NO BRASIL. 

 

 

 

Sueli Carneiro

 

Uma Guerreira contra o racismo

 

Ela resolveu atacar de no Brasil está completando quinhentos anos: a discriminação do negro. Formada em filosofia, autoridade no assunto e liderança do Geledés ( pronuncia-se gueledés)- Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro desmacara o “mito da democracia racial”, garante que “aqui se produziu a mais perversa e sofisticada forma de racismo do mundo”, e diz, com todas as letras, o que é ser negro numa sociedade dominada pelos brancos, um sentimento que se estabelece muito além da flor da pele.

 

Merco Frenette – Qual foi sua primeira experiência direta com o racismo?

 

            Sueli Carneiro –Olha, ser negro, nascer negro, é estar sistematicamente ao longo de toda a vida sofrendo processos de discriminação. Então, não tem a situação A ou B, você é distinguido. Na escola se dá a primeira situação franca, concreta: “Neguinha”, “Pelé”, “Cabelo de Bombril”.

 

            José Arbex Jr- Dentro do mesmo estrato social em que vocês viviam, ou seja, no meio operário, havia racismo por parte das famílias brancas?

 

            Sueli Carneiro- Como a pobreza equaliza certas condições, existe um grau de solidariedade e fraternidade superior ao das classes mais privilegiadas. Porém, quando há uma situação de conflito, é a cor o elemento utilizado para agredir, para distinguir. Por exemplo, você tem seus vizinhos, vocês festejam juntos, um batiza o filho do outro, vocês almoçam juntos nos finais de semana, mas assim que aparece uma situação de conflito, surgem as afirmação: “ Só podia ser negro mesmo”, “ Negro quando não caga na entrada caga na saída”. Ou seja basta surgir alguma situação de tensão para o elemento racial ser utilizado para discriminar, ofender, humilhar .

 

            José Arbex-Jr Você sentia isso em seu bairro?

 

            Sueli Carneiro-Havia mais que isso. Havia um tipo de atitude. O branco pobre, apesar de sua pobreza, tem um sentimento de superioridade frente ao negro. È algo mais ou menos assim: “poderia ser muito pior, além de pobre eu poderia ser preto...”. Há esse sentimento de superioridade, em qualquer classe social.

Escrito por tekka às 19h49
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Marina Amaral você concorda com expressões  como ‘afro-americano’,  ‘ afro-brasileiro’?

 

Sueli Carneiro-Gosto desse termo.

 

Maria Amaral- Isso não reforça um caráter estrangeiro?

 

            Sueli Carneiro – Mas é importante essa identidade em um pais que não nos acolhe, que nos convida a trair a nossa origem como precondição para experimentarmos mobilidade social nele! Para que o negro consiga sair do lugar ao qual a sociedade o destinou, ele tem de cumprir certos rituais, esse caminho tem pré-requistos, e o principal deles é você renunciar à sua identidade, renunciar à sua comunidade; ou seja, você precisa embranquecer para poder ser aceito e permanecer numa situação mais confortável dentro do mundo dos brancos.

            Marco Frenette- Como você explicaria o fato de o racismo no Brasil atua de maneira tão forte e prejudicial e, ao mesmo tempo, permanecer “escondido” ,  já que ninguém parece enxergá-lo?

            Sueli Carneiro – A “ genialidade” do racismo brasileiro reside exatamente nisso. Aqui se produziu a forma mais sofisticada e perversa de racismo que existe no mundo, porque nosso ordenamento jurídico assegurou uma igualdade formal que dá todos uma suposta igualdade de direitos e oportunidades, e liberou a sociedade para discriminar impunemente. Até 1951, por exemplo, o racismo não era nem sequer contravenção penal. Portanto, você tem uma sociedade onde vigora uma ideologia que lhe diz o tempo todo. “Todos são iguais perante a lei”. Desde nossa primeira Constituição, o principio da igualdade formal está assegurado, e acho que é uma estratégia perfeita de, sob o manto de uma suposta igualdade legal, você se omitir completamente diante da desigualdade racial concreta existente em nossa sociedade. Corroborando tudo isso há uma ideologia poderosa do mito da democracia racial. E o contraponto do Brasil sempre foram os Estados Unidos, onde havia a segregação legal. Ora, não havendo segregação legal, estaríamos no paraíso racial . Tanto é que o senso comum opera com uma compreensão estreita do que seja racismo, entendendo-o apenas como a existência de um ódio racial ou de um confronto  racial ou ainda de uma segregação legal, como existiu e existe nos Estados Unidos. Essa nossa situação de igualdade formal aprofundou a visão de inferioridade natural do negro, porque, se você tem uma situação onde supostamente há uma igualdade – pelo menos no plano legal – então, se os negros vivem pior, se são desgraçados, miseráveis, pobres e analfabetos, é porque devem isso às suas próprias características. E isso denuncia o desprezo absoluto que a sociedade tem pelo negro. O negro não chega a ser objeto de ódio dessa sociedade, é apenas objeto de desprezo. Ainda nem chegamos nesse patamar de desenvolver uma força poderosa como a provocada pelo ódio, e que causaria um confronto entre negros e brancos.

 

                                                                        SUELI CARNEIRO é socióloga e jornalista.

 

 (entrevista concedida à revista CAROS AMIGOS n° 35, fevereiro de 2000)



Escrito por tekka às 19h42
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DA COR DO PECADO 2

 De onde vem essa conotação de 'negra x cor do pecado'???? de que COR É O PECADO ??? NEGRO!!!!

Explica SUELI CARNEIRO, socióloga e jornalista: Gilberto Freyre é muito responsável por esse imaginário de uma sexualidade diferenciada das mulheres negras, de uma promiscuidade natural, intrínseca. Acho que ele é um dano para as mulheres negras, um dano psíquico, emocional, um dano brutal para as mulheres carregarem esse estigma de mulheres com uma excitação genésica diferenciada e sempre disponíveis ...

 

 

 

Os negros ainda sorriem, mas vão começar a ranger os dentes. O que é preciso é que eles queiram ser a nação brasileira.

 

                                        Professor Milton Santos, de saudosa memória

 

Marina Amaral >> Como o senhor vê a evolução do movimento negro no Brasil, é rápida ou lenta?

 

Milton Santos >>Se eu olhar para trás, há um crescendo, tanto na velocidade quanto na intensidade. Pode estar misturado com vontade de ser classe média, que polui um pouco as coisas, mas há um crescendo. O fato de que os negros tenham ido para a faculdade também é importante – descobrem também que não vão conseguir emprego. Ou os que conseguem são de menor remuneração. Quando estou pensando na classe média, penso na minha solução individual, que é o pensamento da classe média típico, não é? Mas está havendo uma tomada de consciência, digamos assim, do fato de ser relegado. Porque os negros não fazem parte da nação brasileira, isso é outra coisa. Sinto isso. Pessoalmente é minha experiência.

 

Sérgio de Souza >> O senhor sente que isso também se dá em relação ao pobre?

 

Milton Santos >> Não é a mesma coisa. Porque não está claro na cabeça ...

 

Sérgio de Souza >> Na cabeça do pobre?

 

Milton Santos >> Não, na cabeça dos outros. Quando se é negro, é evidente que não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será pobre. É muito diferente.



Escrito por tekka às 18h17
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Sérgio Pinto de Almeida >> Só excepcionalmente não será.

 

Milton Santos >> Não será pobre, não será humilhado, porque a questão central é a humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico. E daí o medo, que também tenho, de circular. Acredito que tenham medo.

 

Marina Amaral >> O senhor tem medo?

 

Milton Santos >> Claro. Esse medo da humilhação.

 

Marina Amaral >> O senhor tem medo de entrar num restaurante chique e alguém olhar torto porque o senhor é negro?

 

Milton Santos >> Tenho, tenho sim.

 

 

Sérgio de Souza >> Todos os negros têm medo?

 

Milton Santos >>>>Todos têm.

 

MILTON SANTOS foi professor emérito da USP, visiting professor de Stanford, doutor em geografia pela Université de Strasbourg, doutor h.c. de várias universidades. Recebeu inúmeros prêmios e medalhas de ‘real honra ao mérito’, foi consultor da ONU, OIT, OEA e UNESCO; publicou mais de 40 livros e trezentos artigos em revistas científicas em português, francês, inglês e espanhol.

 

(trecho de entrevista à revista CAROS AMIGOS n° 17, de agosto de 1998)

 

Ri-se da cicatriz quem nunca foi ferido - Shakespeare - Ricardo III

 



Escrito por tekka às 18h14
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DA COR DO PECADO

 

 

 

 

José Arbex Jr. __/     você era um negro vindo de Minas, deve ter sofrido preconceito em SP...

 

Os negros que têm conseguido no Brasil algum sucesso, quase todos têm um capital que não perdemos, que é manter as famílias estruturadas. Isso não temos hoje. Na periferia, na maioria das vezes, você tem supermães, com filhos de pais distintos e a auto-estima rebaixada, muita fome, muita droga barata, que é um adubo fundamental para esse estado de coisas que temos. Venho de uma família pobre, mas estruturada. O ideal de estudar era uma coisa obsessiva. Os pais que não tinham estudado achavam que os filhos tinham de estudar. Eu e os meus irmãos tivemos de trabalhar desde cedo, estudar em curso noturno. Isso não impediu que eu concluísse o curso de graduação na universidade publica de Minas. Vim para conseguir melhores empregos. Hoje não é mais assim, mas nos anos 70 você tinha melhores empregos em São Paulo. Vim e pude optar realmente por alguns empregos. Não que não tenha sido discriminado, mas consegui um emprego razoável o tempo suficiente para achar que não queria ficar na emprega. Foi o suficiente para eu saber que deveria pensar que na academia poderia ter um tipo de vida diferente. Não queria me transformar em um executivo, que era por onde eu teria de caminhar.

 

Sérgio de Souza - Seria muito bom o leitor saber disso.

 

Certo. Basicamente há três tipos fundamentais de discriminação que a gente sofre no cotidiano. Uma é aquela padrão, que acontece no dia-a-dia e à qual as pessoas já estão acostumadas: o branco em discriminar com naturalidade e o negro em aceitar. É muito comum os jovens afirmarem: ”Olha, eu vou deixar barato”. Eu já disse a grupos de adolescentes: “Não sai nada barato essa atitude de você não reagir”.É o caso típico de você chegar em um lugar e ser mal entendido. Ser atendido com descaso ou com atraso. Aí a reação deve ser imediata e firme, mas discreta. Uma pergunta, por exemplo, à balconista: “Você esta aqui para atender?” Da maneira com a qual ela reagir é que você vai deixar de ser discreto ou não. Quando a discriminação for excessiva, aí a reação deve ser imediata e indiscreta. Todos ali, inclusive o gerente, têm de saber que você está realmente colocando um caso de discriminação ostensiva. Agora, há a discriminação sofisticada, na qual raramente o negro consegue perceber que está sendo discriminado. A quase totalidade da classe média negra brasileira sofre desse tipo de discriminação e, como se diz na gíria, “a ficha não cai”. Porque essa discriminação é difícil de captar.

 

Andréa Dip ­­­­- E como seria essa discriminação?

 

Cito um ou dois exemplos no livro. Eu já fiz o seguinte num shopping: inverti, percebi que havia um segurança que me seguia e eu querendo fazer compras e ele me seguia. Sabe o que fiz? Peguei o celular e cancelei o compromisso que tinha. Agora estava com tempo, e inverti comecei a segui-lo, foram uns quarenta minutos, assim, até que ele se dirigiu a mim e a primeira coisa que lembrei a ele foi o seguinte, algo que nós, negros, esquecemos: “Eu pago teu salário para você me dar a efetiva segurança aqui dentro, você está me promovendo insegurança.” Não, eu não estava seguindo o senhor.” “Pois eu estou e vou seguir você mais um tempo, pra você sentir como é isso e depois vou reclamar com o seu chefe”. E o acompanhei mais uns vinte minutos, depois fui lá fazer minha reclamação.

 

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entrevista concedida à revista CAROS AMIGOS em



Escrito por tekka às 20h37
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agonia & êxtase

 

 

AGONIA

1. MED. estertor

2. MUS. toque especial de sini para anunciar a morte de alguém

3. fig: declínio (institucinonal, mnoral, etc) - que precede o fim, últimos momentos

4. forma de aflição ou sofrimento agudo, de origem física ou moral

5. ânsia provocada por enjôo ou náusea

6. desejo veemente, ansiedade, ânsia

7. pressa, açodamento ('vive correndo, na maior agonia')

8. incapacidade de tomar decisão

9. briga, luta - ETIMOLOGIA do grego agônia, as "lutas nos jogos, exercícios em geral, combate";  agitação da alma, angústia, aflição.

    do latim: agonia,ae - ansiedade, dor, perturbação, inquietação

agonista - na Grécia antiga, pessoa que se dedicava à ginástica para fortalecer o físico, ou como preparação para o serviço militar; lutador; aquele que luta nos jogos, atleta; o que luta pela palavra e pela ação; do latim: agonista,ae, 'atleta, lutador ou presidente de jogos públicos'

antagonista - é que age em sentido oposto: opositor, adversário. / Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa, Ed. Objetiva, RJ, 2001 - 1ª Edição

O IMPORTANTE É COMPETIR? O IMPORTANTE É COMPETIR E ... VENCER, depois de tanta AGONIA!! é só olhar a cara de êxtase do VENCEDOR, seu transe ao ouvir o hino de sua pátria, a certeza e a alegria de estar no pódio 1, e não no 2 ou 3 ...mas o pior é dar o melhor de si, fazer o impossível e depender da NOTA!!!!é um dos componentes do sadismo ... dizem os juizes que as notas no caso da ginástica JAMAIS atingirão o 10 porque a perfeição não existe ... a PERFEIÇÃO é uma meta, perseguida pelo goleiro ou é uma coisa de deuses -  já que estamos em Atenas...ou seja: não vale o que fazemos mas o QUE OS OUTROS ACHAM QUE VALEMOS ...


Terra do Nunca / Leandro Wirz

Nada é mais que a gente.

Tudo grita, mas nada

como um amor mudo.

Um grito surdo

que erra

pela terra do nunca.

E os sinais esboçam um truismo torto:

O amor que não pode viver

não pode ser morto.


RECADO

 
Abelha! Espero por ti!/ Ontem mesmo eu ia falando/ Para Alguém que tu conheces/ Que logo estarás chegando -
 
Semana passada voltaram as Rãs - Estão bem instaladas, no seu afã - As aves, quase todas aqui novamente - O Trevo, espesso e quente -
 
Receberás minha Carta pelo dia Dezessete: Responde!/ Ou melhor, vem ter comigo urgente - / Tua Amiga Mosca, cordialmente ...
 
emily dickinson/ tradução de Isa Lando



Escrito por tekka às 20h00
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COMPRA DE ARMAS PELO GOVERNO

 

 

foto-montagem de Romero Cavalcante

 

por Eduardo Almeida Reis - Caderno BRASÍLIA do jornal HOJE EM DIA  - de 14/08/2004 Brasília

 

 

Domingo, 18 de julho, o Bairro Nova Vista, em Contagem, MG, foi sacudido pelo assassinato de quatro mulheres da família Ferreira, entre as quais uma criança de sete anos. Divina de Fátima Ferreira foi morta com quatro facadas, Cleide de Fátima Ferreira levou 12 facada Judite Medeiros, sogra de Cleide, morreu com 30 facadas, e Ana Flavia de Jesus Ferreira, a criança de sete anos, também esfaqueada, foi encontrada agonizante atrás de sofá.

            Domingo, 18 de julho, encerrou a semana em que todos os meios de comunicação do Brasil comentaram a compra de armar pelo Governo: 100 reais cada revolver até calibre 38;200  reais para carabinas e pistolas 9 mm; 300 reais para metralhadoras, fuzis e assemelhados. Até armas de coleção, como garruchas que não funcionam há 200 anos, e arcabuzes, inúteis como armas de fogo mais de 300 anos, tem sido incluídos nas vendas feitas por particulares ao Governo, através das delegacias de policia.

            Quando vi a entrega das armas das nas delegacias, feita por gente bem-intencionada, fiquei pensando numa segunda etapa que envolva punhais, adagas, espadas, floretes, machados, lanças, arcos e flechas, zarabatanas, bordunas e tacapes-tudo que sempre serviu, e ainda serve, como armas, sem esquecer as pedras do calçamentos das ruas em pé-de-moleque, os paralelepípedos e, em são Paulo, onde há imensa colônia japonesa, os tacos de basebol. Um taco de basebol, na maior parte das vezes, é muito mais confiável do que uma arma de fogo, cuja munição pode mascar na hora do tiro.

            Diante de uma resolução oficial como esta compra das armas para destruição, fico feliz de saber que ainda existe gente de boa-fé neste pais, capaz de acreditar na eficiência da medida. E vou mais longe: capaz de acreditar no Estatuto do Desarmamento que servirá apenas para concentrar todas as armas de fogo clandestinas em mãos dos delinqüentes.

            Sim, porque um homem de bem, dos poucos que ainda existem, não se arriscará a pegar seis anos de cadeia pelo fato de portar arma sem autorização, enquanto o bandido está pouco ligando para mais seis, ou menos seis anos de reclusão, ele que já está condenado a 100 anos e continua solto ou porque não existem cadeias, ou porque fugiu de uma delas.

            Para que não se diga que só sei criticar, aqui vai, a titulo de colaboração com o Governo do companheiro L. da Silva, pequena lista de armas que podem ser adquiridas por ai: bico de falcão, chuço, partasana, alabarda, clava, maça, funda lança, bisarma, pique, tridente, venábulo, estilete, aljava, pederneira, esmerilhão, montante, espadas do século XVI, espadas modernas, cimitarra, sabre-baioneta..

            Há um chicote-d’armas, composto de um pedaço de cano com uma corrente soldada que termina em bola ferro cheia de pregos pontiagudos, que deve fazer um estrago dos diabos. Mas é preciso não esquecer que o singelo paralelepípedo também racha um crânio, e que o criminoso de contagem valeu-se de três facas de cozinha, em mau estado, para matar quatro pessoas da família Ferreira.

 

 



Escrito por tekka às 17h57
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VOCÊ TEM MEDO DE QUE?

 

 

 

E se o sol não voltasse amanhã?- não é a mais antiga angústia do mundo? –

 Georges Simenon.

 

O medo é o tema principal de congresso internacional que acontecerá entre os dias 23/8 e 29/9, em São Paulo e no Rio. Além do historiador francês Jean Delumeau, principal convidado internacional, 14 conferencistas brasileiros e estrangeiros irão discutir o assunto a partir de diferentes enfoques. Marilena Chauí falará sobre “O medo e a paz americana”, Robert Stam, brasilianista da Universidade de Nova York, explica o ‘complexo industrial do medo’, o filósofo Francis Wollf responde ao questionamento: “deve-se temer a morte?”, e o pensador francês Jacques Rancière discute a passagem do “medo ao terror”. As palestras acontecerão no teatro da Aliança Francesa em São Paulo e na Maison de France, no centro do Rio, sempre às 18h30.

 

ABISMO / Nelson de Oliveira

 

Morro de medo de despencar da ponte. Morro de pavor de cair de todas as minhas pontes ao mesmo tempo. De ficar sozinho no meu minúsculo território. Noite sim, noite não, sonho com isso: as últimas pontes indo pelos ares num súbito acesso de fúria. Num rompante amargo e belicosos: tchau pra vocês, bye-bye. A mulher, os filhos? “Hasta la vista”. Os amigos? Adeus, camaradas, “au revoir”. Todos os laços afetivos para o bebeléu. Freqüentemente sonho com isso: depois de explodir todas as minhas pontes, caio na escuridão dos solitários anônimos. No deserto dos loucos e dos insensíveis. Acordo apavorado. Salto para fora da queda onírica, disposto a aceitar o pesadelo como um aviso: dinamitar pontes sem despencar no abismo é para os profissionais. É para os profetas e os terroristas. É para quem gosta de cortar a vida pela raiz e jamais morreu na tentativa.

                                                                                                                                                              

Nelson de Oliveira é escritor.

 

DESTINO/ Mary Del Priore

 

Meu maior temor é essa coisa chamada “destino”: coisa tantas vezes vivida como uma cadeia inflexível  e inexorável de acontecimentos, coisa capaz de nos empurrar para a mais absoluta impotência e fragilidade. Destino é tudo que nos escapa, que nos é exterior e que nos atinge no mais íntimo de nós mesmos. Na Antiguidade, os gregos designavam como “ananké” a esse fenômeno capaz de constranger o indivíduo sem dó nem piedade, dobrando-o malgrado sua própria vontade e impedindo-o de desmontar todas as iniciativas que pudessem interceptar malefícios. [...] O sentimento de não ser ator de sua própria história, de ser arrastado sem saber, de ser submetido ao arbítrio, à contingência e ao acidental, me traz profundo desconforto e- por que não? – temor...

                                                                                                Mary Del Priore é historiadora

 



Escrito por tekka às 13h31
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de quase tudo ...

QUASE TUDO / Carlos Reichenbach

 

T

enho muito medo do silêncio imenso da surdez

do sonho mutilado

de todas as dores

da imobilidade dos pesadelos

da náusea dos ignorantes

da música das trevas

da mediocridade e da torpeza

dos vermes e das serpentes

do vodu e do ressentimento

das vaginas sem visco

da falta de inspiração, da isenção do estro

das professoras de piano

dos versos do poeta suicida

dos demagogos

da falta de sorte

da ideologia da crueldade

do vazio negro e absoluto

do entardecer na hora dos loucos

do uivo de abandono

de “O Bebê de Rosemary” e “O Inquilino”

das masmorras e das sombras do Dops

das almas de amigos violados pelo sistema

dos infernos do poeta Celso de Alencar

de reler a página final de “O Ofício de Viver”,

de Cesare Pavese

da indiferença dos meus filhos

do som do órgão saído do nada

das estradas sem encruzilhada

de macumba com vela preta

do batiscafo à deriva e dos barcos sem barqueiro

do dissídio entre a arte e vida

do trilhos de trem partidos ao meio

dos cadilaques metrlhados

dos crimes sem solução

da vilania recompensada

dos terraços depredados

das piscinas profundas e vazias

do mar revolto, mas sem vento

dos abismos sem mirante

das premonições suscitadas pelo medo ...

 

            Carlos Reichnebach é cineasta .

 

As matérias sobre O MEDO são do caderno MAIS! Da FOLHA DE SÃO PAULO de 15/8/2004 /



Escrito por tekka às 13h22
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Pra que casar se todos vão virar EX?

 

Amiga minha, a Chris, leu o post sobre Dona Marta e mandou o seguinte comentário  mais  crônica do Otávio Frias Filho:

lemos tanto A MORTE DA FAMÍLIA, para fins terapêuticos, que quero continuar o assunto: já que é para separar, pra que então que o pessoal continua casando? veja esta crônica sobre A VOLTA DA FAMÍLIA: (Otávio Frias Filho)

        "Foi por volta dos 50 que a família ocidental se viu reduzida à sua estrutura biológica mínima: o pai profissional, a mãe hiperativa, um casal de filhos saudáveis. Desaparecia o cortejo patriarcalista de tios, primos, contraparentes e agregados para que a molécula básica, mais eficaz, fulgurasse nos anuncias de revista.
Admitia-se, quando muito, um mascote canino ao pé do sofá, depositário do afeto outrora disperso pela parentela. Era de se imaginar que o terremoto sexual dos anos 60 completaria o que já se encontrava em fase tão adiantada, reduzindo cada um a si próprio, um átomo narcísico perdido no universo dos sentimentos.
Isso de certa forma aconteceu. A consolidação do mercado na economia corresponde exatamente à vitória de um narcisismo racional, calculista, no plano psicológico. São como duas faces da mesma moeda. Mas eis que, passados 30 anos, um novo cortejo familiar se reúne nas festas, nos aniversários, no fim-de-semana.
Há um encanto insólito nessas cenas, como se os antepassados reencarnassem em ex-maridos, ex-esposas, semi-irmãos e quase-primos, uma seiva continua percorrendo os subterrâneos do DNA humano. Surgem problemas terminológicos. Como chamar, por exemplo, o comadrio de duas mulheres que têm filhos de um mesmo homem?
Acaba de sair no Brasil o livro Monogamia ( Companhia das Letras), do psicanalista inglês Adam Phillips. São aforismos em estilo francês, altissonantes e paradoxais. Como observou Matinas Suzuki Jr. ao apresentar o livro na Ilustrada, têm do hoje banalizado Fragmentos de um discurso amoroso ( Francisco Alves), de Roland Barthes, bíblia de uma geração.
O autor parece ver uma crise tanto na idéia de monogamia como no que seria o seu oposto, a promiscuidade. “O único relacionamento verdadeiramente monogâmico é aquele que temos conosco mesmo” , conclui um trecho. Nosso egoísmo gostaria das vantagens de ser e de não ser monogâmico, o que é impossível.
A grande família Ex é o testemunho dessa impossibilidade, embora ela não deixe de ser uma família, com suas alegrias e tristezas. No tempo de nossos bisavós, era fácil manter-se monogâmico. Exceto na faixa estreita da prostituição, a indisponibilidade sexual era quase completa, o preço a pagar, muito alto.
A idéia de felicidade estritamente pessoal não existia, alguém era feliz (ou acreditava ser, o que aliás é a mesma coisa) em relação aos outros, a família, à pátria, a Deus. O casamento era e continua sendo uma forma de torpor, que por isso mesmo impede que a pessoa caia num excesso de autoconsciência, que se baste sozinha.
Kierkegaard, que nunca se casou, achava que o amor romântico era um fato da natureza; só o amor conjugal era comparável á obra de arte. As condições atuais tornam essa arte ainda mais preciosa. Uma intempérie sexual muito mais demorada e difícil de transpor separa qualquer casamento do porto seguro da velhice".



Escrito por tekka às 17h11
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o amor é cego ..

Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus; as dores do mundo dilacerariam meu coração. Se imaginássemos um demônio criador, ter-se-ia o direito de censura-lo, mostrando-lhe sua obra: "como te atreves a perturbar o sagrado repouso do nada, para criares este mundo de angústia e dores" - Schopenhauer
 
O INDIVIDUO É VÍTIMA DA ESPÉCIE
 
para Schopenhauer, a suprema finalidade de toda empresa amorosa, quer seja cômica ou trágica, é, realmente, a mais grave, a mais séria, e a mais importante de todas as finalidades que empolgam a vida humana: a preservação da espécie. E que a natureza usa de todos os ardís para fazer o indivíduo crer em uma reciprocidade sentimental e na certeza de ser amado - "por mais que os namorados não o suspeitem, a finalidade de toda novela amorosa é um nascimento; o enredo, que leva as personagens ao desenlace, é coisa secundária [...] Para conseguir esse fim, a natureza o engana por meio de uma ilusão qualquer, mostrando felicidade onde só realmente existe o bem da espécie, e se converte em escravo desta, acreditando obedecer somente aos seus desejos".
 
Os homens assemelham-se a relógios que não sabem porque andam: cada vez que um novo ser nasce, dá-se corda no relógio da vida humana para seguir repetindo o eterno e gasto estribilho de uma caixa de música, frase por frase, compasso por compasso, com pequenas variações".
 
O QUE NOS RESTA? - responde ele: A PIEDADE - "a piedade é um fato milagroso, pelo qual vemos a linha da demarcação, separando um ser de outro, fazendo o "não-eu" tornar-se de algum modo o "eu" [...] A humanidade desconhece o homem sem piedade. A palavra 'humano' emprega-se muitas vezes como sinônimo de piedoso".
 
                                                                    ####
 
O QUE DIZ MONTAIGNE - "Quanto ao casamento, além de ser um negócio em que nossa liberdade se restringe às primeiras gestões e cuja duração indeterminada nos é imposta, conclui-se geralmente em vista de outros objetivos e mil e um incidentes estranhos e imprevisíveis se misturam a ele, o que basta para perturbar o curso da mais viva afeição. Ao passo que, quando se trata de amizade, nada intervém senão ela e ela unicamente"...
 
                                                                   ####
 
O QUE DIZ A CIÊNCIA? QUE O AMOR É CEGO MESMO pesquisadores ingleses afirmam que os sentimentos amorosos levam à supressão da atividade em áreas do cérebro que controlam o pensamento crítico. E que tanto o amor romântico quanto o amor materno produzem o mesmo efeito no cérebro, ao ativar um sistema de gratificação que explica a motivação do amor.
 
                                                                  ####
 
Quando Schopenhauer escreveu sua A VONTADE DE AMAR, não havia a pílula, bebê de proveta, manipulação genética, afirmação da mulher como pessoa separada, nem movimento gay. Aliás, parece que ultimamente só dois grupos são a favor do casamento: os gays, como afirmação de uma opção, e a Igreja, para preservar o Santo Matrimônio. Os demais só querem "ficar" ...
 
"SEIS BILHÕES DE SERES HUMANOS! O planeta, as florestas, e os outros animais devem estar apavorados!  .... A Família? sempre um aglomerado de fanáticos e de bobalhões, de vítimas que consomem toda a existência para 'desfazer' as teias de aranha que os une e, lógico, para mostrar que são política e moralmente corretos" .... (Ézzio Flávio Bastos, em AS SUTILEZAS DO MAU CARATISMO, ou as engrenagens da miséria existencial - de Brasília).
 
MILLÔR: "é um enigma de que todo mundo finge saber a resposta" ...
 
 


Escrito por tekka às 17h03
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repetindo: por que, ainda se casar?

Os motivos são os mais variados - alguns que vão mencionados abaixo são risíveis para quem mora nas capitais - mas no interior ainda prevalecem. De onde tirei isto? muita coisa de Schopenhauer, outras de minha própria observação, outras de fontes que estão na memória, sem os devidos créditos - não tenho as fichas devidamente organizadas
 
1. armadilha da natureza para manter a espécie (o 'clamor do sexo', sob o nome de "amor")
 
2. valorização social do casamento (dignidade, status, a prole - altamente valorizada)
 
3. tábua de salvação (contra a solidão, contra o controle familiar = CASAMOS NÃO PARA CONSTRUIR MAS PARA ESCAPAR DA ANTERIOR
 
4. buscar um 'messias' para nos resgatar de males e infelicidades
 
5. conveniência ('golpe do baú', políticas, etc)
 
6. pressões familiares e sociais ('tomar juízo', virar 'homem sério')
 
7. complexo de Pigmalião (obter o controle total sobre uma pessoa que se pretende transformar, principalmente alcoólatra; ou: ser uma espécie de professor/a de pessoa 'inferior')
 
8. neurose: um complementa a loucura do outro
 
9. pseudo-altruísmo: necessidade de que alguém dependa da gente
 
10. dinheiro, poder conferido pela 'sociedade conjugal'
 
11. sado-masoquismo: a vítima ama seu carrasco e vice-versa
 
12. o casamento como emprego ou profissão, à falta de outra (essa é, talvez, a mais frequente nas chamadas 'classes B, C, D, o alfabeto inteiro)
 
13. idealização de personagens (ser 'pai', 'mãe', 'meu amor', 'meu bem' - repetindo padrões escutados na família ao longo do tempo)
 
14. incapacidade de ver a hostilidade e dependência disfarçadas em 'pessoas boazinhas'
 
15. narcisismo: achar uma pessoa que 'não se cansa' de nos admirar 24 hs por dia
 
16. idealização do LAR em seus aspectos de local confortável, privativo, que se pode arrumar à vontade - pelo menos trocar os móveis de lugar ... e onde 'se manda' em tudo e em todos: "meu lar é meu castelo", "pátrio poder", à falta de qualquer outro.
 
17. manutençao e expansão do patrimônio, pelo trabalho dos filhos que vão se 'formar ' ou virar comerciantes, políticos, adminstradores de empresas familiares
 
18. o homem se casa pra vencer a solidão - a mulher, para ficar só / o homem se casa por descuido, a mulher, por precaução / o homem se casa para ser marido, a mulher para ser mãe (Leon Eliachar)
 
19. para fazer 'festa de casamento'
 
20. para sair em CARAS ou qualquer coluna social ...
 
 
 
~
por essas e outras que o amor TEM QUE SER CEGO ...
 
 
 

A Chris quer fazer um blog, e me pergunta que LINHA eu sigo ... uai, Chris, NENHUMA - aqui é um 'show de variedades", um circo particular, onde trago qualquer assunto... a blogolândia tem uma escala de 'famosos', 'escritores', 'pensadores', 'humoristas' e o "resto",  no qual me incluo: apresento 'faits divers' ou variedades - o que me dá na telha - escrevo o que quero, lê quem quer ... talvez seja um lugar democrático, embora haja certas ditaduras veladas: ninguém coloca samba, música americana predomina, música brasileira tem os 'autorizados' e os 'não autorizados', etc - tirando isso e algumas cositas más, é um lugar democrático. Sou meio caótica, nem sempre tenho o crédito do que digo, mas uso aspas, sei que as imagens pertencem ao imenso oceano de bancos de imagens e pôsters, enfim, pode vir e sentir-se à vontade. O único risco é que não te leiam, mas ...
quem lê tanta notícia????
 



Escrito por tekka às 17h02
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Dona Marta e seus dois maridos

 

 

 

 

O PSDB de olho em D. Marta e nos seus dois maridos

 

Como é que as vanguardas do atraso costumam classificar uma mulher que escolheu se separar de um   maridão fiel, bom partido, para se casar logo em seguida com outro? E que ainda tem o desplante  de manter boas relações com o primeiro?

 

Por Maria Rita Kehl (escritora e psicanalista) /

 

Pelo menos em um ponto o PSDB de São Paulo concorda com a ala mais conservadora do Vaticano,  representada pelo sombrio cardeal alemão Joseph Ratzinger: ambos condenam, cada um à sua   maneira, o feminismo contemporâneo. Este, na opinião do Vaticano, "equipara homens e mulheres e