.
strange-fruit


Nunca bata em uma porta
Sem ter a intenção de entrar,
Nunca conquiste um coraçao
Se não for para amar...

***

Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.


Hilda Hist



Escrito por tekka às 14h10
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REVELAÇÃO

 

 

Quando chegaste,

Redescobri em mim inocência e alegria.

Removi a máscara que sobrava:

Nada havia a esconder de ti,

Nem medo – a não ser partires.

 

Supérfluas as palavras,

Dispensada a aparência, fiquei eu,

Sem prumo,

Como antes da primeira dúvida

E do último desencanto.

 

Quando chegaste, escutei meu nome como num outro tempo.

O meu lado da sombra entregou

O que ninguém via:

As feridas sem cura e a esperança sem rumo.

 

 

Começa a crer, por mim, que o amor é possível,

E que a vida vale a pena e o pranto

De cada dia.

 

 / Lya Luft /

 

http://vounessasp.terra.com.br/site/musica.asp?idMusica=17218

 



Escrito por tekka às 01h30
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BRASILEIRINHOS APÁTRIDAS

Pátria é o país em que nascemos, o torrão natal, nossa terra natal. Para Olavo Bilac, “A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo”. Para Miguel Torga, “uma pátria é o espaço telúrico e moral, cultural e afetivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro”. Ter pátria é o pressuposto básico da cidadania e dele não se pode abrir mão.

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Emigrantes brasileiros descobriram, perplexos e apreensivos, que seus filhos vão perder a nacionalidade brasileira. São centenas de milhares de crianças que falam português, e que vivem com seus pais na Europa e Ásia, principalmente. A revisão constitucional de 1994 as ‘despatriou’, pois seus passaportes vão caducar quando elas fizerem dezoito anos.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

O artigo da Constituição, que garantia a nacionalidade aos filhos dos brasileiros no exterior ficou de fora na revisão. Então, o Ministério das Relações Exteriores criou para eles um passaporte provisório. Isso implica em que esses meninos e meninas se tornem estrangeiros no Brasil, após os dezoito anos. São cerca de 200 mil filhos de emigrantes e futuros apátridas.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

O que tem sido feito? O que pode ainda ser feito? Apelar às autoridades competentes pela aprovação de nova emenda de lei, a 272-2000, para restabelecer o artigo 12, em seu inciso 1 letra “c’. Se a emenda for votada e aprovada, essas crianças serão consideradas brasileiras natas ao se registrarem nos consulados brasileiros do mundo inteiro, como era antes da reforma constitucional.

Há vários movimentos na Internet e na mídia em geral com esse propósito, entre eles o www.brasileirinhosapatridas.org, com sede na Suíça, com milhares de participantes, entre pais, mães, avós e demais parentes dos ‘brasileirinhos apátridas’. Estes versos de Vinícius de Moraes ficam aqui para ilustrar a situação que vem tirando o sono de nossos compatriotas que vivem no exterior.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”



Escrito por tekka às 10h21
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entrevista com LUIZ MUTARELLI

 

 

Tem uma frase do Diomedes que eu adoro, que eu acho de uma beleza e de uma profundidade, não por ser minha, mas porque é uma coisa que eu senti profundamente: é num momento em que ela destrata ele e ele pergunta “só porque você não me ama mais eu tenho que te tratar como se não te amasse mais também?”. Então, isso pra mim foi uma dor muito grande. Essa ruptura me marcou muito. Tudo bem, a pessoa não gosta mais de mim, não me quer mais. Essa pessoa tão importante se torna tão cruel. E o que eu faço com o meu amor? Eu não posso seguir meu caminho ainda amando essa pessoa? Como eu mato o meu amor?

O personagem de O natimorto sai de casa, mas logo se submete a outro amor.
O amor tem que ser uma relação de igualdade. Você se ver igualmente. Quando você idolatra ou despreza, cria essas patologias do amor. Esse personagem é muito parecido comigo. Talvez se eu saísse de casa, como eu já tive o impulso, eu fizesse como ele, iria para um hotel e me trancaria lá. Entende? É uma fraqueza maior ainda. Tem uma história do Mundo pet que eu gosto muito. Um cara assiste a Fugindo do inferno, que é um filme de guerra bem legal, onde eles cavam um túnel para fugir da prisão. E ele percebe e começa a cavar um túnel para fugir da mulher, para fugir de casa. Ele não entende que era só abrir a porta. Então ele cava escondido, quando ela não está, e todo dia vai tirando a terra numa fronha de travesseiro.

Isso é Kafka...
Totalmente. O primeiro livro, mesmo, que eu li foi A metamorfose. E aquilo me pegou. Foi uma identidade. Para minha família, para o meu meio, eu era um inseto. A minha mãe morria de vergonha de mim, para ela eu era um problema, sempre fui um problema na família. Então, Kafka não só me influenciou como tinha aquela identidade de ler um livro e pensar que ele escreveu esse livro pra mim. Dá um ciúme do livro...

A solidão é uma condição muito freqüente no seu trabalho. Até porque a separação leva a ela. Há uma necessidade de solidão e, ao mesmo tempo, uma aversão a ela.
Essa solidão é um pouco mais do que a solidão. É a dor de eu não poder carregar a cruz de quem eu gosto. Eu perdi um amigo de câncer, uma história que contei em Réquiem, e eu queria pegar um pouco dessa doença. Pensava que se eu pegasse metade daquilo, ele não sofreria tanto. Meu pai também morreu de câncer, e ele sofreu. Então... É uma solidão e uma impotência. Umas situações em que, infelizmente, você não tem o que fazer. É você ter uma pessoa muito preciosa para você e ver que está perdendo essa pessoa. E você não quer perdê-la porque não quer ficar sozinho. Ela é uma pessoa importante para você, ela te faz bem... Mas a solidão, para mim, também faz um bem, eu adoro ficar sozinho. Adoro a minha companhia. Mas tem um limite. Quando eu trabalho, eu digo que vou para o inferno, porque eu afundo, eu me transformo. Não gosto nem que cheguem perto. Mas eu me conheço muito bem. Eu sei a hora de voltar.



Escrito por tekka às 11h47
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O ANO PASSADO

 

 

 

 

Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.

/ Mário Quintana /

A TODOS OS AMIGOS E AMIGAS QUE AQUI PASSAREM, SAIBAM QUE ESTOU DESEJANDO UM FELIZ ANO NOVO!



Escrito por tekka às 21h59
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 IDENTIDADE, CEGUEIRA & PANETONE

 

Mesmo sem perceber, o indivíduo hoje é um prisioneiro do mercado, essa instituição total dissimulada, e seus relacionamentos só são mediados por coisas, e não por sua “identidade”. Ele fica preso num círculo invisível, que o constrange ainda mais nos chamados “dias de festas natalinas”, e o induz a comprar, comprar, comprar. Cessa, desse modo, a possibilidade de qualquer experiência sadia do con-viver e as pessoas se digladiam ou se matam de trabalhar para adquirir, no fim do ano, o último modelo de carro, relógio, celular, badulaques para os filhos, ou presentes para os amigos, mesmo que “ocultos”. É uma espécie de cegueira coletiva, e os olhos só enxergam as vitrines ou anúncios dos outdoors, e as famosas listas e cartinhas ao papai-noel.

E os filhos no meio disso? Solange Jobim e Souza pergunta-nos: “Por que os nossos filhos são tão infelizes? Por que tão violentos, se nós pais fazemos de tudo, do possível ao impossível, para que a felicidade prometida pelo consumo esteja ao seu alcance?” - Ela mesma responde: “O fato é que aprendemos a avaliar com perfeição a vida através dos objetos que circulam entre nós […] Uma felicidade deserta e sem cultura tomou conta de nós. Não há mais aspirações nem projetos. Nossas relações com nossos filhos estão hoje absolutamente empobrecidas de verdadeiras experiências, aquelas que nos orgulhávamos de contar quando nos sentíamos herdeiros de uma tradição. Mas não há mais o que contar. A abundância do supérfluo nos deixou, a todos nós, mudos…” (*) 

O exagero de luzes do Natal não nos confere claridade; a insistência dos jingles nos atordoa. A palavra de ordem da temporada é: COMPRA PRA MIM! Simbolicamente, pelo menos, acho que vou passar sem panetone …

www.focando.jor.br
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Escrito por tekka às 12h38
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Escrito por tekka às 20h58
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poema

 

Não há o poema em si

Há o poema em mim

E o poema em ti ...

Octávio Paz



Escrito por tekka às 19h34
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Tenho te amado tanto e de tal jeito
Como se a terra fosse um céu de brasa.
Abrasa assim de amor todo meu peito
Como se a vida fosse vôo e asa.

Iniciação e fim.
Amo-te ausente
Porque é de ausência o amor que se pressente.
E se é que este arder há de ser sempre
Hei de morrer de amor nascendo em mim.

Que mistério tão grande te aproxima
Deste poeta irreal e sem magia?
De onde vem este sopro que me anima
A olhar as coisas com o olhar que as cria?

Atormenta-me a vida de poesia
De amor e medo e de infinita espera.
E se é que te amo mais do que devia
Não sei o que se deva amar na terra.

Hilda Hilst
Roteiro do Silêncio.


Escrito por tekka às 02h55
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Brasília não tem urubu. Tem anjos belíssimos, femininos, plácidos, tanto na Catedral quanto na Esplanada. Anjos têm essa conotação de candura e esplendor, intermediários que são entre o céu e a terra. Não obstante a suavidade, são também justiceiros: com a espada, um Arcanjo expulsou Adão e Eva do paraíso, venceu Lúcifer e se constituiu em defensor dos homens contra o dragão infernal. Já urubus são os corvos brasileiros.

Urubus malandros, longevos, aves de rapina diurna, sentem de longe emanações pestilentas. Descreve-os Tom Jobim: “solenes ombros altos, narinas conspícuas, ministros de assuntos impossíveis […] pacote negro, compacto, bico cravado no vento, velocidade feita letal”. Não se descuidam da prole, vertendo-lhes no bico restos regurgitados – coisa de pai para filho.

Fazem falta em Brasília não só porque têm lá sua ética, mas porque são lixeiros incansáveis e atentos. Benfeitores canhestros da humanidade, são agourentos, mas úteis e necessários. Como eu ia dizendo, não os temos aqui. E os Anjos que Ceschiatti nos legou são impassíveis, não se metem em confusão. Aqui, a própria Justiça é sossegada, com a espada delicadamente pousada no colo.

ler mais em>>>>>  http://www.focando.jor.br/?p=92



Escrito por tekka às 21h34
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Ausência / Vinícius

 

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes



Escrito por tekka às 10h24
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SANGUE DO MEU SANGUE

 

Sempre me pareceu curiosa a obsessão das mães para fazer ‘exame de sangue’ dos filhotes. Mesmo sem saber direito o que esperar de tal exame, deixam transparecer o que rola em seu imaginário, a começar pelo ‘grupo sanguíneo’. Até o aparecimento do teste de DNA, ficava aquela indagação: qual o tipo de sangue do bebê? Combina com o meu? Combina com o do pai? Tem anemia? Tem sífilis? Esta deixou um traço indelével na história, determinante de quem tem ’sangue bom’ ou ’sangue ruim’.

A circulação sanguínea foi descoberta por Harvey no século XVII. Até então não se sabia que o sangue ia de órgão em órgão, através da rede vascular de veias e artérias, com ‘pit stop’ nos pulmões, para a troca de gás carbônico por oxigênio. Foi ele quem descreveu que o coração bombeava três vezes o peso do corpo em quantidade de sangue e que este circulava em um circuito fechado: coração-artéria-tecidos-veias-coração.

Sangue tem um significado de vida e morte, colorindo dramaticamente o nascimento, as guerras, as cirurgias, os tiroteios urbanos. O cinema tem toda uma estética do sangue, apropriada por vários cineastas, com destaque para Hitchcock e Tarantino. A cena do banheiro em Psicose é considerada a mais perfeita do cinema, mesmo com o sangue em preto e branco. Quentin Tarantino encharcou a tela com o sangue-trash dos ‘mangás’ japoneses, numa verdadeira hemorragia de significantes mortíferos: tiros em profusão, seringas, cabeças cortadas por vistosas espadas japonesas, e muito, muito sangue.

A vida é cruenta: a placenta é uma esponja ensangüentada ligada ao feto pelo cordão umbilical. O útero é o órgão sanguíneo por excelência, descrito de várias formas por Michelet, que denomina a criança nascitura de ‘flor de leite e sangue’. É proibido o comércio de sangue, mas em tempos bicudos é moeda valiosa. Durante o ‘crack’ de 1929, as pessoas deixavam amostras nos vários hospitais, como cartões de visita – além da grana, havia a certeza de uma boa refeição, às vezes com vinho do Porto.

Sangue é vida borbulhante: “Os homens nasciam no sangue e no sangue morriam. O sangue era potente, mágico, fecundo. O sangue era um êxtase de dor e de beleza, uma partícula da essência divina. Onde havia adoração, havia sangue – onde quer que houvesse vida e música e embriaguez e adoração e triunfo, havia sangue“. (Henry Miller em Crazy Cock).

Receber o resultado de um hemograma, com diagnóstico de ’sangue bom’, juntamente com o certificado de doador, reveste-se da solenidade de um ato heróico e nobre. Com a certeza de estar compartilhando do tênue fio que liga uma vida humana a outra.

http://www.focando.jor.br/?p=35



Escrito por tekka às 10h07
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O FILHO DE FRANCISCO

             Pássaros - foto de Leila Lopes

Quando ele nasceu, a mãe nem imaginava que, ao dar-lhe o nome, traçava seu destino. Tão logo atingiu a adolescência, Francisco foi crismado e passou a ler diariamente, a vida do “poverello de Assis”. Assistiu o “Irmão Sol Irmã Lua” no cinema, chorando muito na cena em que seu padroeiro se despoja das ricas vestes paternas e dedica sua vida e energia a cuidar dos leprosos.

Visitou Florença e as antigas fábricas de lã, seguindo para Assis, onde sentiu intensa comoção na capela de Francesco. Ali mesmo, em lágrimas, prometeu tornar-se médico dos pobres, para que nunca viessem a sentir fome nem os rigores do frio. Em sua obstinação cega, não conseguia distinguir entre pobres verdadeiros e os de ocasião, que se aproveitavam de seu coração mole. Sempre tinha uma camisa e agasalho na bolsa, biscoitos para as crianças e até escovas de dente.

Evitava ofender o próximo com palavras injuriosas e visitava órfãos e viúvas. Abriu uma ONG, cujos objetivos eram similares aos do Fome Zero e dos programas contra o preconceito e em prol do meio-ambiente. Não perdia oportunidade de se mostrar concorde com a sentença bíblica de que os últimos serão os primeiros.

Não tinha carro, para não poluir o planeta; só comia alimentos orgânicos e recolhia óleo de cozinha usado para transformá-lo em sabão. Separava o lixo dos vizinhos em contêineres que adquiriu do próprio bolso para a coleta seletiva. A Internet passou a ser seu braço direito e com ela acompanhava movimentos contra a poluição dos rios, o desmatamento e o efeito estufa. Catava papel nas calçadas e doutrinava uns e outros sobre os malefícios do fast-food e das embalagens de isopor. À noite se recolhia em prantos, meditando sobre a demência humana e a corrupção dos governantes.

Passou a falar sozinho, já que perdera os interlocutores. Foi recolhido a uma enfermaria psiquiátrica em pleno inverno. Aceitava resignado as injeções de haldol com fenergan e, ao acordar, retomava seus discursos pela paz no mundo. Sentindo-se esgotado e incapaz de voltar ao trabalho, chamou seu filho único, a quem confiou pequena herança material: uma polaróide, um atlas de anatomia, alguns livros e uma poupança na Caixa Econômica.

Morreu sozinho, sem mágoa. Foi levado à sepultura pelos amigos de enfermaria e um cortejo de pombos e passarinhos, que vinham bicar as flores e coroas. É que o filho, tomado de compaixão por sua pobreza franciscana, havia distribuído migalhas de pão e canjiquinha de milho sobre o féretro, produzindo, estrategicamente, o pequeno “milagre” …

__

o focando não morreu! HTTP://FOCANDO.JOR.BR



Escrito por tekka às 22h15
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TERNURA

Eu te peço perdão por te amar de repente

Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos

Das horas que passei à sombra dos teus gestos

Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos

Das noites que vivi acalentado

Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo

Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.

E posso te dizer que o grande afeto que te deixo

Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas

Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...

É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias

E só te pede que te repouses quieta, muito quieta

E deixes que as mãos cálidas da noite

Encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora.

Vinicius de Moraes



Escrito por tekka às 23h16
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"Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só
Porque esperar se podemos começar tudo de novo
Agora mesmo
A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance
O sol nasce pra todos Só não sabe quem não quer
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só
Até bem pouco tempo atrás
Poderíamos mudar o mundo
Quem roubou nossa coragem ?
Tudo é dor E toda dor vem do desejo
De não sentirmos dor
Quando o sol bater na janela do seu quarto
Lembra e vê que o caminho é um só"



Escrito por tekka às 11h13
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NÃO CHORE MAIS

Gilberto Gil



 
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